De molho, Muricy põe Fla no topo, elogia Zé e revela sufocos da arritmia
Por Redação Publicado 24 de junho de 2016 às 10:42hs

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Com mais de 20 anos nas costas como treinador, Muricy Ramalho aguentou muita pressão e venceu praticamente todos os rivais que enfrentou. Em seu currículo, só não consta o Mundial de Clubes. Porém, o mais duro dos adversários chama-se arritmia cardíaca. O problema fez o paulista de 60 anos tirar o time de campo. Isso dói em Muricy, ficar longe do futebol, esporte que trata como vício. Já recebeu convites para atuar como comentarista ou na função de coordenador, mas, segundo o próprio, 2016 é ano para cuidar da saúde e ficar perto da mulher, Roseli, e dos filhos, Fabinho, Fabíola e Muricy Júnior.

Fã de um bom chope, Muricy, nesse primeiro momento do tratamento, não está curtindo a vida como deseja. São muitos remédios, e o que mais faz atualmente é ir ao médico. O lazer, pasmem, só podia ser o futebol.

– O que eu mais fiz foi ir ao médico, não deu para passear nem coisa nenhuma (risos). Fiz um monte de exames que precisava fazer, e aí quando você sai do exame tem que voltar várias vezes no médico e ver o que tem. Só tenho feito isso, tomado muito remédio e vendo os jogos. Vejo o Flamengo e jogos de muitos times também, mas vejo o Flamengo porque tenho carinho muito especial pelas pessoas que estão lá. É um vício da gente – afirmou um bem-humorado Muricy, respondendo a primeira das muitas perguntas feitas em 30 minutos por telefone com o GloboEsporte.com.

Confira abaixo o papo com Muricy. 

Quais as recomendações que seu médico lhe passou?

Arritmia eu já tenho há algum tempo, não é grave, tem muita gente que tem a doença. Mas como ela se repete muito, se torna perigosa. Pode criar coágulo, dar um derrame, e aí sim é perigosa. Tava repetindo demais. Tenho que tomar cuidado, fazer um tratamento muito forte. Tenho que ficar ligado, porque agora está perigosa.

Você gosta de uma cervejinha. Já está liberada?

Eu estou sem tomar nada, gosto de um chopinho. Estou tomando muito remédio, de manhã e de noite. Tomar remédio com bebida corta o efeito. Também tenho que cuidar um pouco da alimentação, não posso comer gordura, todas essas coisas. Nesse momento não estou podendo fazer absolutamente nada do que sempre fiz.

Conquistou títulos por onde passou, mas deixou o Flamengo sem nenhum. Existe frustração de sair do Flamengo sem ser campeão?

Ficou chato, porque tínhamos um projeto de dois anos, ainda mais com essa diretoria. Os caras são muito gente boa. Os profissionais que trabalham no Flamengo também são. Me senti mal com isso, mas aguentei até onde podia. Tive várias vezes arritmia, mas não falava porque queria trabalhar. A última foi muito forte, fiquei a noite e a manhã toda. Por isso me internaram. Tinha esperança muito grande porque a gente veio não só para conquistar títulos, mas para mudar o Flamengo.

E não ter dirigido o Flamengo no Maracanã? A diretoria diz que seu sonho era esse…

Isso aí nos atrapalhou um pouco no começo, porque tivemos que cuidar muito do nosso planejamento por conta de viagens. Não ter nosso campo dificulta muito, principalmente deslocamento, cansaço de jogador, recuperação de atletas. Todos nós que somos profissionais do Flamengo (fala como se ainda fosse funcionário) queríamos jogar no nosso campo. Jogar no Maracanã é legal demais. Infelizmente estava parado para a Olimpíada, faz muita falta.

Certas vezes, você parecia aéreo, um pouco abatido nessa passagem pelo Flamengo, sobretudo nas entrevistas. Foi obrigado a segurar emoções por causa da arritmia?

Emoção eu não segurei, mas a arritmia estava muito acentuada, me preocupava muito porque várias delas eu revertia, porque esse problema a gente tem que reverter rápido, e várias vezes só com remédio eu conseguia. A gente suporta um pouco, só que é duro, porque estava muito constante, muito presente. Isso aí me aborrecia porque é muito chato, a gente fica agoniado porque o coração bate muito desregulado, mas forçava, segurei a bronca para suportar.

Qual era a sensação que tinha? 

No mal-estar da arritmia, você sente o coração bater muito diferente, acelerado, dá um suor terrível, um pouco de tontura. É um negócio que eu só dominava com remédio, mas no final o remédio já não fazia mais efeito. Eu tive que fazer tratamento direto na veia, e os médicos me disseram que, se não mudasse o panorama, teriam que reverter com choque, que é muito duro. Depois de um dia e meio no hospital, voltou a bater normal, e eu não precisei do choque.

O retorno ao futebol será em que condição?

Esse ano eu não pretendo trabalhar diretamente com futebol, num clube, né? Em outras coisas, sim, pode acontecer. Já tive convite de coordenador em algum time, também de comentarista, mas esse ano quero cuidar da minha saúde. No ano que vem, me vejo como coordenador, mais próximo da comissão técnica para avaliar o trabalho, para ter essa ligação importante entre diretoria e time. É muito importante ter uma pessoa com experiência ali. Não sou executivo, é mais comissão, é mais pra escolher técnico, jogador. Isso é importante, tem muito ex-jogador lá fora fazendo isso.

Sua atuação seria parecida com a de qual dirigente, por exemplo?

O meu é mais perto do Edu, que estava no Corinthians e foi para a Seleção. É ex-jogador que conhece o que está fazendo, sabe o que o técnico pensa, conversa, tem hora que clube quer mandar técnico embora, aí é que tem que ter alguém com opinião para ver se o cara pode ser trocado. O cara vê que o treinador trabalha bem, que o resultado logo vem, então é esse trabalho do dia a dia.

Voltando ao Flamengo: você reclamou muito das constantes viagens. A impressão é que o Flamengo quis fazer dinheiro com Brasília e deixou parte técnica de lado. Priorizou o ganho financeiro em detrimento dos resultados. Concorda com essa análise?

Não concordo, porque não foram muitos jogos. Todos pedidos que fizemos para jogar em Volta Redonda, eles cumpriram. No começo podia ter se pensado em muitos jogo em Brasília, mas não foi isso. Começamos bem o Brasileiro em Volta Redonda, foi um pedido nosso. Transferiram muitos jogos, pois fora do Rio sempre jogaríamos porque o Flamengo não tem campo. Mas os que seriam jogados mais longe, eles mudaram bastante para Volta Redonda. Nisso aí foram bem demais com a gente, não olharam dinheiro, não, sempre viram parte técnica. Contra times muito grandes, de torcida, tem que ser em Brasília mesmo.

Como classifica sua passagem com derrotas no Carioca, Primeira Liga e Copa do Brasil, já que todos esperavam mais do Flamengo pelo técnico e elenco?

O nosso grande projeto era mudar toda a metodologia de trabalho, o pensamento das pessoas que trabalham no Flamengo. A gente tirava jogador de clássico porque estava às vezes a ponto de contundir, e esse projeto, mesmo com as derrotas, não mudou. Claro que se mudou muitos jogadores, mas com certeza o Flamengo, com esse plantel que formamos, vai dar resultado. Trabalho é muito bem feito, as pessoas trabalham bem, e os jogadores são de alto nível.

Como foi sua relação com o Zé Ricardo e o que você acha: melhor mantê-lo no time ou contratar um peso pesado como você, Abel, por exemplo?

Eu tinha uma conversa com ele para perguntar dos meninos que eu queria subir, como Vizeu, Ronaldo, Léo. Tive a primeira conversa, e ele me disse que ficou muito surpreso, porque nunca ninguém tinha conversado com ele para pedir opinião. Foi uma conversa legal. Todo mundo tem um começo, então ele tem que saber que se for efetivado de vez é diferente. Tem um momento que você tem que decidir se vai ser técnico da base, auxiliar ou técnico de verdade. Técnico de verdade é aquele que assina contrato, e daí para frente não tem mais volta. Chega a hora que é mandado embora, é o começo. O Flamengo está certo de dar apoio ao Zé Ricardo. Futebol é resultado, e ele está indo bem. É um cara que conhece futebol e merece.

Quando você estava à frente do Flamengo, perguntávamos onde o time poderia chegar, e você falava em título. Se falasse o contrário, perderia força. Hoje, fora do clube, o que pensa? Qual o limite desse Flamengo?

Acho que está muito equilibrado, não tem bicho papão, ninguém excepcional. Tem chance de brigar em cima, não dá para contar favorito. Agora vem a janela, alguns clubes podem perder jogadores. Esses podem cair, e os de baixo subir. Assim, o Flamengo também passa a ser um dos favoritos, pode ser um dos favoritos até mesmo para o título.

O seu 4-3-3 sofreu críticas por deixar o time exposto demais. Você mesmo chegou a usar o 4-4-2. Com seis meses de trabalho e vendo os resultados, manteria o 4-3-3?

Está jogando assim novamente, com Cirino, Vizeu e mais um ponta aberto, não mudou nada. O esquema não vem primeiro que jogador, o mais importantes são características dos jogadores, e o Flamengo tem jogadores para jogar assim da forma que vem jogando.

Como vê Mancuello e Cuéllar, as duas contratações mais caras do ano, no banco de reservas?

O Cuéllar, depois do Grêmio, teve uma contusão que parecia mais séria. Não sei mais o que aconteceu. O Mancuello tem a disputa com o Patrick, e o Patrick vem num bom momento. Futebol é momento, e jogador às vezes sente um pouco adaptação.

Mas um time com Mancuello e Alan Patrick é possível? Você mesmo os escalou juntos contra Bangu e Boavista.

Já jogaram juntos contra Boavista e Bangu, só que o Flamengo, como os jogadores que tem, fica mais equilibrado com caras abertos pelos lados. Quando os adversários atacam demais, não dá para ficar fazendo Patrick e Mancuello correrem atrás dos laterais.

Em relação ao tema dos zagueiros, que foi um grande problema em sua passagem, observa-se um Flamengo fazendo esforço por um gringo. Ouvimos que você vetou o nome do Donatti, do Rosario. É verdade?

Tinham pessoas que analisavam, não só o treinador. Tem o pessoal da inteligência que olhava com carinho esses jogadores, principalmente argentinos. Olhamos mais de 50 jogadores, mas, às vezes, pegava na parte técnica ou na de dinheiro. Esse mesmo pegou muito na parte do dinheiro, porque não é um jogador barato. Além disso, tinha o problema da Libertadores, porque eles (Rosario Central) continuavam. Houve vários jogadores que as pessoas que opinavam às vezes não concordavam com isso ou aquilo. Eu sempre priorizei jogador com técnica boa, que saiba jogar, porque o Flamengo precisa disso.

Quais jogadores você pediu?

Não é que eu pedi. Tem o pessoal da inteligência, e eles punham os jogadores na mesa, aí começávamos a estudar. É parte financeira, tem que ver tudo, se estava disponível. Não basta dizer se é bom ou não. Fomos para tudo quanto é lado, não sei quantos jogadores estavam sendo monitorados. A conversa é muito mais ampla e envolve muitas pessoas, não é simples.

Você fala com muito carinho da diretoria, mas a maior crítica a eles é o fato de terem muitas pessoas no futebol. Ou seja, não se identifica o comando. O Vanderlei Luxemburgo, quando deixou o clube em 2015, disse que esse grupo “não sabia nada de futebol”. O que pensa disso?

Primeiro cada um tem uma opinião, não sei o que aconteceu no tempo do Vanderlei, mas no meu foi muito bom. E também não acho que seja muita gente. Trabalhavam diretamente na política Bandeira, Godinho e Plínio. São poucas pessoas, mais diretamente eram só eles. A parte profissional é dirigida pelo Fred (Luz, diretor geral do clube), Rodrigo Caetano (diretor executivo) e o Serginho (Sérgio Helt, supervisor) no CT. Não vejo muita gente, são muito competentes e estavam acreditando no trabalho . Não vi nada de errado, pelo contrário: o Flamengo está sendo transformado. O próprio Vanderlei, que gosta do Flamengo, se der uma passada lá, vai ver outro Flamengo no pensamento, outro Flamengo na estrutura, outro Flamengo no treinamento.

Escutamos que, nos bastidores, os jogadores não estavam mais comprando seu barulho. Chegou a sentir isso?

Esse é um tipo de conversa que realmente nem senti. O ambiente era muito bom, não senti nada de estranho, até porque o meu forte é o ambiente. Todo lugar que vou é assim, é só perguntar para os funcionários.

Quem te ligou do Flamengo durante o período de afastamento até o anúncio da saída?

A diretoria ligava todo dia. Quando ganhava jogo ligavam, também ligavam para falar de outras coisas, foram muito parceiros. Falei com o Juan pelo telefone, mas foi difícil de falar com os atletas porque quando eu não estava muito legal não falei com quase ninguém. Quando você recebe uma notícia dura, fica injuriado. Então não falei com quase ninguém, também não deu para me despedir com uma notícia atrás da outra, um monte de coisa ruim. Tive dificuldade de ir no Ninho para me despedir não só dos jogadores, mas dos outros funcionários também. O que o Flamengo tem de melhor é o ambiente, o time vai dar certo. O ambiente de trabalho é feito numa parceria muito grande. Eu tinha vontade de abraçar massagistas, roupeiros, a tia que faz a comida, porque passa a ser família. Ficamos mais no Flamengo do que com a própria família.

Fonte:Ge