Câmara discute meios de combate a violência em Campo Grande
Por Redação Publicado 24 de abril de 2018 às 11:05hs

Por meio de uma parceria com a Arquidiocese de Campo Grande, a Câmara Municipal realizou, na noite desta segunda-feira (23), audiência pública para discutir sobre “Fraternidade e Superação da Violência”, tema abordado na Campanha da Fraternidade de 2018. Representantes de diversos segmentos estiveram no Plenário Oliva Enciso, na sede da Casa de Leis, para sugerir políticas de prevenção e combate às mais diversas formas de violência.

“Estamos, no nosso dia a dia, a mercê da violência. Se tiver uma gestão séria, que invista e sem desvios na segurança, podemos diminuir os índices de violência em nosso país. Aqui, vamos colher sugestões para encaminhar ao Executivo Municipal, que faz sua parte com a atuação da Guarda Municipal. Se não nos manifestarmos, não vamos a lugar nenhum. Pagamos nossos impostos para termos segurança. Vamos tirar encaminhamentos e somar com os da audiência que a Assembleia Legislativa vai realizar”, afirmou o vereador Ayrton Araújo, um dos proponentes da audiência.

De acordo com o Arcebispo Metropolitano, Dom Dimas Lara Barbosa, a campanha deste ano aborda a superação de todas as formas de violência. “A campanha tem uma metodologia desenvolvida para associar a fé e a vida. Cada ano a igreja católica aborda um tema relevante para a sociedade. Este ano abordamos a superação de todas as formas de violência”, disse.

Para o Padre Agenor Martins da Silva, coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Campo Grande, a violência é uma ação que acompanha o homem desde os primórdios. “Ela, no seu nascedouro, vem reconhecendo esse conflito. A construção das sociedades. A violência é algo tão profundo que é também um dos elementos básicos da sagrada escritura. Em todos os livros, em todas as situações a gente encontra a questão da violência bastante aflorada. Não temos a pretensão de eliminar a violência. Superar a violência significa criar métodos para que ela atinja o menor grupo possível de pessoas, ou cause o melhor dano possível. Isso é um sonho”, reconheceu.

Segundo o vereador André Salineiro, as audiências públicas para discutir sobre a violência têm rendido frutos. “Trazer não só pessoas que têm conhecimento na área, mas também trazer a população, e isso é de fundamental importância. Segurança pública, às vezes, falamos que muito se fala e pouco se faz. Violência é igual saúde. A pessoa só dá valor, pela dor. O Brasil, hoje, é o 7º no mundo do homicídio doloso por grupos de 100 mil habitantes. Temos que investir em prevenção, educação e policiamento. Precisamos de políticas públicas que levem em conta o médio e longo prazo, não apenas o curto prazo. Países que mudaram sua forma de encarar a violência se preocuparam, principalmente, com educação”, ponderou.

Para o vereador Dr. Wilson Sami, a sociedade deve resgatar alguns princípios deixados de lado para combater a violência. “Temos que falar de resgate de valores que se perderam, da família, de bons costumes. Não abandonar o jovem, sairmos com uma proposta concreta daqui. Temos que fazer um trabalho eficaz e parar de tapar o sol com a peneira. Se não resgatarmos isso, vamos continuar vendo tudo isso que acontece”, analisou. “Queremos a participação de vocês nesta Casa, ajudando-nos a criar leis e a fiscalizar. Os encaminhamentos serão importantíssimos para o bom andamento da segurança pública da nossa cidade”, complementou a vereadora Dharleng Campos.

Problema de polícia – As mais diversas formas de violência não podem ser encaradas como um problema a ser resolvido unicamente pela segurança pública. A opinião é de dois policiais militares que participaram da audiência: o Major Antônio Neto, que representou a Polícia Militar, e o deputado estadual Cabo Almi, que falou em nome da Assembleia Legislativa.

“Acredito que não temos investimentos na área da educação, o que influencia todos os segmentos sociais. Acredito que todo o corpo social tem responsabilidade nisso. Quando falamos disso, não falamos somente em desigualdade econômica, mas também de falta de acesso a bens materiais e imateriais, como lazer e cultura. Também podemos falar de falta de sistemas morais minimamente eficazes. Hoje, temos uma sociedade mais liberal e, na hora de se colocar um freio, principalmente nos jovens, encontramos dificuldades. A violência não é somente uma questão policial. Precisamos investir na educação, reduzir a desigualdade social e, também, no combate à corrupção”, considerou o oficial.

“O tema é bastante abrangente. Não dá para responsabilizar a violência apenas sobre a questão policial. Na maioria das vezes que a força policial atua, a violência já se concretizou. A má formação da família pode ser, também, um fator de violência. O exemplo dos pais, falta de controle, também é um fator determinante. Só de sermos fraternos, termos humildade, respeito pelo semelhante, uma boa parcela da violência diminui entre nós”, analisou o deputado.

Para a vereadora Enfermeira Cida Amaral, a violência pode ser vista de diversas formas. “Falar de violência pra mim é muito complexo, ainda mais quando a gente fala de violência direta, cultural e institucional. Eu sei que temos vários bairros populosos que não tem infraestrutura adequada para atender toda a população, e estão querendo cobrar das famílias, acreditando que são elas as grandes responsáveis pela violência, e nós sabemos que não são. Como parlamentar me questiono, o que estamos fazendo para amenizar o sofrimento dessas famílias? Eu me atrevo a dizer que deveríamos ter no mínimo, mais segurança no ir e vir de todos e educação de qualidade. Assim poderíamos reduzir o número de presídios com segurança máxima. Assim poderíamos reduzir também a fome, que é uma forma de violência. Pra mim não tem nada mais dolorido do que estão fazendo com as famílias, com os idosos e crianças. Que leis são essas, que políticas publicas são essas que não funcionam? Mas isso parte de mim e de você, quando não lutamos para ver um resultado melhor. Quando nos colocamos no lugar do próximo, entendemos mais e assim conseguimos ajudar as pessoas que precisam.  Na minha percepção como parlamentar, precisamos trabalhar em prol das famílias, fazendo leis, fiscalizando e fazendo valer nosso trabalho”.

Fábio Julio Branqueli, do Instituto Desenvolvimento Evangélico, cobrou mais políticas públicas para a juventude. “Não seria uma violência tantos parques sem uma praça para as crianças praticarem esportes? Não seria violência a pequena porcentagem que destinamos à cultura? Acho que nossa violência vai muito além do que pensamos. Prevenção não é onde mais investimentos, infelizmente”, lamentou.

Já a vice-presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil), Maria Isabela Saldanha, destacou a necessidade de aprovação de um fundo municipal voltado exclusivamente para investimentos na segurança. “Já estamos próximos de nos tornar um narcopaís, pois não há investimento na fronteira. Estamos cobrando, agora, o Prefeito que devolva a esta Casa o projeto que cria o fundo de recursos para a segurança pública para que haja um trabalho resolutivo neste sentido”, defendeu.

Forma de violência pouco comentada e ainda tido como tabu na mídia, o suicídio também foi foco do debate. Para Roberto Sinai, coordenador do Grupo Amor à Vida na Prevenção ao Suicídio, “precisamos estar dispostos a ouvir o próximo”. “O suicídio é uma violência que tem atingido muitas famílias. Temos um suicídio no mundo a cada 40 segundos. Isso é muito grave. Em Campo grande, o suicídio é a terceira causa de morte, atrás do trânsito e do homicídio. Podemos evitar 90% dos suicídios, desde que os sinais sejam percebidos cedo, em casa. Uma dor não compartilhada dói mais. Precisamos estar dispostos a ouvir o próximo, pois temos observado muitas pessoas vivendo sozinhas dentro da multidão e dentro de nossas casas. Que possamos refletir sobre isso, que possamos resgatar todos os valores da família, prevenir. O suicídio não tem remédio”, disse.

Por fim, o presidente da Comissão Por Um Asfalto Digno, Ary Fialho, destacou a necessidade de dar continuidade ao debate. “Esta ação deve ser permanente. O que não tem acontecido, infelizmente, nas audiências que tenho participado, é a criação de um comitê ou uma comissão, não importa o nome, que dê continuidade ao acompanhamento da ação. Nossas ações têm sido interessantes, muitas sugestões, mas não observamos o acompanhamento, a luta para que isso aconteça. A persistência deve ser nossa marca para chegarmos onde desejamos”, finalizou.